Author Archives: Thales ZP

Antes de Reagan: O surgimento do monetarismo na política da década de 1960.

Economist december 7 1963 Cover

 

Para ganhar notoriedade pública, um economista não pode ser apenas um acadêmico. Assim como Keynes, Milton Friedman compreendeu a importância de disseminar suas ideias fora da academia e se transformou em uma figura política central no período do pós-guerra. O objetivo desse ensaio é relacionar a aceitação das ideias de Friedman, especialmente o Monetarismo, a sua maior participação política a partir da década de 1960. A pesquisa foi centrada nos Arquivos Históricos do New York Times, principal jornal de âmbito nacional, entre 1930 e 1965.

Apesar da eleição de Ronald Reagan em 1980 ser normalmente considerada o marco das políticas defendidas por Friedman, suas ideias popularizaram-se durante a disputa à presidência de 1964, através do candidato Republicano Barry Goldwater. A participação de Friedman na sua equipe econômica ocorreu após o lançamento de dois livros que o colocaram na esfera pública: Capitalismo e Liberdade de 1962 e História Monetária dos Estados Unidos, de 1963.

Citações sobre Milton Friedman: 1945-1990 (Ngram)

MF

No meio acadêmico, Friedman obteve reconhecimento desde o início da sua carreira. Entrou na Rutgers University com 16 anos em 1928 e terminou em 1932, onde foi prontamente aceito para os estudos de pós-graduação na Universidade de Chicago. Sua primeira menção no New York Times ocorre justamente em uma lista de menção honrosa aos formandos de junho de 1932 (NYT, 11/06/1932). Com um financiamento da Social Sciences Research Council, em 1935, Friedman obteve seu primeiro trabalho em Washigton, no National Resources Committee, em pesquisas relacionadas ao New Deal (Hammond, D. Milton Friedman. Econ Journal Watch. Volume 10, Issue 3, September 2013. NYT, 29/04/1935). Em 1937, ele foi para o NBER trabalhar com Simon Kuznets no que seria seu primeiro trabalho de impacto, uma estimativa sobre diferenças salariais entre diferentes grupos profissionais. As diferenças salariais foram atribuídas a “restrições de entrada” deliberadas para manter o salário alto, especialmente em relação à profissão médica (NYT, 05/02/1939). A importância desse período no NBER também veio do trabalho com Anna J. Schwartz, que resultaria no livro sobre a história monetária dos EUA.

Como professor da Universidade de Chicago a partir de 1946, Friedman começou a aparecer mais ativamente no debate público, participando de programas de rádio com Theodore Schultz (Round Table: “Rich Man. Poor Man.” Theodore W. Schultz, Milton Friedman, Louis Virth – WNBC. December 22, 1946.) e de comitês defendendo o ensino de estatística no ensino primário junto com Harold Hotelling (Statistics Urged as Liberal Study” (NYT, 05/09/1947). No entanto, o tópico de maior importância no período do pós-guerra era a inflação. Friedman em 1946 havia publicado com George Stigler, quando ambos ainda estavam na Universidade de Minnesota, uma crítica ao congelamento dos aluguéis efetuado pelo governo. Eles defendiam a ideia que o congelamento de preços iria piorar a oferta de moradias e prejudicar a população mais pobre (Friedman, M; Stigler, G. Roofs or Ceilings? The Current Housing Problem. Popular Essays on Current Problems. Vol.1, n.2 Sep, 1946). Em 1948, com a proposta de um maior controle de preços feita pelo Presidente Truman, Friedman enviou junto com outros professores na Universidade de Chicago, como Frank Knight e Aaron Director,  uma carta ao editor do New York Times defendendo que os controles não funcionariam. A solução para a inflação viria com o controle da oferta de moeda: “Variations in the general price level and wage level are in the main determined by variations in the quantity of money” (NYT, 11/01/1948).

A popularidade de Friedman continuou ao longo da década de 1950. Em 1958, ele participou de um programa de televisão chamado “The Great Challenge”, com outros cinco economistas, incluindo John Kenneth Galbraith, para debater os problemas enfrentados pela economia norte-americana (NYT 24/03/1958). Enquanto a influência de Friedman crescia suas ideias ainda encontravam resistência dentro do governo. A eleição de John F. Kennedy em 1961 e sua proposta de aumentar os gastos do governo federal em programas sociais, como moradias populares e planos de saúde para idosos, gerou protestos de organizações que defendiam austeridade nas contas públicas. Entre elas, a Câmara do Comércio dos Estados Unidos, que chamou Friedman para debater com membros do partido democrata e criticar as propostas de Kennedy (NYT 04/05/1961). Como forma de popularizar suas ideias entre o público não acadêmico, e assim conseguir maior legitimação política, em 1962, a Universidade de Chicago criou um comitê, chamado de Free Society, para traduzir estudos econômicos para o “inglês coloquial”. Segundo Friedman, no lançamento do comitê:

“Much of the best of analysis relevant to policy in a free society is highly technical. […] The idea of this project is to see whether it is possible to arrange for cooperation between the authors of such articles and competent professional writers to produce a series of articles that would be placed in outlets of quasi-popular appeal.” NYT 23/04/1964.

Essa tentativa de influenciar o debate público por parte da Universidade de Chicago encontrou um período de aumento na radicalização política nos Estados Unidos, como o debate sobre o Civil Rights Act e o assassinato do Presidente Kennedy em 1963. Devido à crescente polarização partidária, durante o início da década de 1960 surge um movimento conservador dentro do Partido Republicano. Apesar de inicialmente ser considerada uma “revolta pseudoconservadora”, ou caracterizados pela mídia como um grupo de “nut cases”, esses republicanos conseguiram em pouco tempo reunir diferentes grupos conservadores e, de uma forma surpreendente, assegurar a candidatura de 1963 do Senador Barry Goldwater, defensor de políticas “libertárias”, para a presidência da República (Brennan, Mary C. Turning right in the sixties: the conservative capture of the GOP. The University of North Carolina Press, 1995).

Sendo uma pessoa com pouca educação e que se declarava publicamente contra a ideia de utilizar consultores para os mais diversos assuntos (uma crítica à equipe de acadêmicos de Kennedy), Goldwater era visto com desdém pela elite intelectual do país. Segundo John Kenneth Galbraith: “Just fromreading Goldwater’s speeches, I can’t think of a man who needs professors more.” (NYT, 31/03/1964). No entanto, após vencer as primárias do Partido Republicano e ser o nomeado para concorrer à presidência, Goldwater montou uma equipe de acadêmicos das mais diversas áreas. Entre eles, destacava-se o “importante economista não keynesiano”, Milton Friedman, que se tornou o mentor do plano econômico de Goldwater. Dentre as propostas do plano, destacava-se a expansão da oferta monetária a uma taxa constante e o fim da taxa de câmbio fixa, dois pilares do monetarismo que seriam efetivamente adotados na década de 1980 (Albert Kraus. “Views of Chicago Educator Admired by Goldwater” (NYT, 26/07/1964). A mudança de política econômica dos republicanos conservadores fica evidente quando muitos economistas do partido, que serviram durante o governo de Eisenhower, se recusaram à apoiar as políticas de Goldwater (Republican Economists Split on Goldwater, NYT, 31/07/1964). Friedman já era visto como um “monetarista genial”, que tinha se tornado crescentemente mais ativo na política devido a sua “obrigação de auxiliar a esclarecer o debate” (A Talk With a Goldwater Man (NYT, 03/10/1964).

Mesmo tendo perdido as eleições devido as suas “posições políticas altamente impopulares”, a campanha de 1964 colocou em evidência a já chamada “Escola de Chicago”. Em um período em que a maioria dos economistas acadêmicos era Democrata, a candidatura de Goldwater estabeleceu as bases para o chamado movimento conservador da década de 1980. Além do de conservadores como Ayn Rand, Goldwater obteve apoio do futuro governador da Califórnia em 1966, Ronald Reagan (Jones, D. S. Masters of the Universe. Hayek, Friedman and the Birth of Neoliberal Politics. Princeton U. Press, 2012).

Com a ineficácia das políticas keynesianas para controlar a inflação e retomar o crescimento durante a década de 1970, as ideias de Friedman tornaram-se a alternativa utilizada nas políticas econômicas durante o governo Reagan. A proeminência do Monetarismo fora da academia teve que esperar o momento político certo.

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by | April 9, 2014 · 12:10 am

DNA test for Brazil’s 1973 economic miracle? Roberto Campos strikes back.

From the New York Times, January 28, 1973

SAO PAULO, Brazil

Did Columbus go over the edge when he reached Latin America? Most North American opinion molders seemed to think so last year, apparently holding steadfast to the belief that the Western hemisphere ends somewhere south of Miami.

Only international businessmen, it seemed, were able to see the emergence of three distinct  “continents” on the southern horizon-Brazil, Mexico and the rest of Latin America.
They saw, judging from their reports in 1972, Brazil blast into the industrial world’s orbit. “A new Japan,” is a phrase often used to describe Brazil.

In many interviews during the last year businessmen seemed fascinated by Brazil-in fact, they poured at least $3-billion into Brazil, more than they invested in all the rest of Latin America.
The Brazilians added $9-billion of their own money and smashed all economic records for the fifth consecutive year. Few-if any-nations in Latin America have made so much economic progress in so short a time.

By harnessing a mere fraction of their natural resources with ample cheap labor, the Brazilians continued to forge an industrial machine. Basically, Brazil is today where Japan was a dozen years ago, according to Roberto Campos, “father ,of Brazil’s economic ‘miracle” and former Minister of Planning. Only this country’s economy wm not require 12 years to reach Japan’s present industrial level, he maintains.

 

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Ford Foundation, Fama, computers, and the Nobel

From:  Macroeconomic Dynamics, 17, 2013, 1169–1192. MD DIALOGUE RATIONAL EXPECTATIONS: RETROSPECT AND PROSPECT. A Panel Discussion with Michael Lovell, Robert Lucas, Dale Mortensen, Robert Shiller, and Neil Wallace Moderated by Kevin D. Hoover and Warren Young.

Young: Just to put rational expectations into a broader intellectual context, at approximately the same time as rational expectations was gaining traction so was the efficient-markets hypothesis in finance. Although formally related, the two
hypotheses seem to have different historical roots. Can you shed any light on how they were first connected? Do they stand or fall together?

Lucas: Merton Miller was on both thesis committees. He was on Jack’s committee at Carnegie Tech; and when he moved to Chicago, he was on Gene Fama’s [Eugene Fama’s] committee. So, I asked him that question once, and [he] said, “we didn’t see it.” He knew both theses, but he didn’t see that they were saying very similar things.
Shiller: I have a lot to say about this. I put on my reading list a wonderful description of the efficient-markets hypothesis—by Charles Conant, 1904. He has a beautiful essay about speculation and markets and the function of speculation and how all these speculators, trying to make profits, create a price, not just for today; they create a price for tomorrow and a price for next year and all relevant years in the futures markets. And, then, people who are planning have all these price indicators. It’s laid out very nicely around 1910. He didn’t call it the “efficientmarkets hypothesis”; but it was a little glib too. Anyway, he never got famous for it. He was, however, a great writer. So the efficient-markets hypothesis was well known from, I think, then on, if not before. And the next thing that happened, that seemed to me was a turning point, was that the Ford Foundation gave the University of Chicago a grant to create the Center for Research in Security Prices (CRSP) tapes in 1960. And this is another breakthrough. They made an appeal to Ford about the importance to science of data; they got a large grant. They said that all the data is sitting there in the vaults of the stock exchange, but nobody knows what it means. And they said, “let’s create tapes”—a Univac computer tape (can you believe that?)—“and we’ll give it away at cost to anybody. This is public domain. And what we are going to do is to organize all these stock price data. And let’s get it clear, so we know the actual returns, the dividends, the timing, the dates. Let’s get it all accurately and get it on a Fortran program, so that anybody can analyze it.” That’s the big turning point. By 1970 we had Gene Fama publishing an impressive review article about a huge body of research about market efficiency. But all of that happened because now for the first time, because before then nobody ever had stock price data. (Conant was just writing from personal experience and logic.) There was a little bit of commodities data and there was random-walk talk in the twenties and thirties, but now in the 1960s we had all the data back to 1926. And it was analyzed, and the computers were working on it, and the results looked impressive. Basically, all these researchers couldn’t find any consistent profit opportunities. It was just amazing. Again, the uniformity of these results was overstated by Gene Fama; but there was a breakthrough here—a breakthrough of science, of computers, of someone getting the data organized, and getting it available.

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The Economist (1843) – Liberal Brazil and the British Protectionism

“Thus a country from which we receive such liberal treatment, which takes from us on the most favoured terms manufactures to the amount of at least 2,600,000l. per annum, finds that we practically prohibit from our consumption every important article which it produces”

This is from the first edition of The Economist, 170 years ago (front page). The country referred to as being the liberal one is, surprisingly, Brazil. The Economist was born among the Corn Laws’ debate, and the asymmetry between Brazil and UK trade tariffs was the perfect example of the anti liberal bias of the British parliament

With the 1827 treaty, it was established that British manufactures were to be admitted into the Brazilian Empire at rates not to exceed 15% (ad valorem).

Complaints regarding the “unequal character” of British trade were due the following taxes applied to the most important Brazilian exports.

SUGAR, COFFEE, and COTTON WOOL.

“On the former, we impose a duty of 63s. per cwt., equal to 300 per cent. on the value when landed in our docks, and equal to 150 per cent. above the duty chargeable on sugars produced in our own colonies, which in practice is quite prohibitory, and we consequently consume none of their sugar. On their coffee, even by the new tariff, we impose a duty equal to 200 per cent. on its value landed here, and equal to 100 per cent. above the duty chargeable on coffee produced in our colonies, and we consequently use little or none of their coffee. On their cotton wool we impose a moderate duty (the same as on North American), and of this article we import to a value under 250,000l. annually; to which, if we add a few other articles to a small extent, we may compute their exports to this country for our consumption about 300,000l.”

 

http://www.economist.com/node/1857194

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Debate público sobre economia brasileira. O mesmo em 150 anos.

É interessante como o centro do debate público sobre economia não muda ao longo de quase 150 anos.

Do livro Elementos de Estatística, de 1865. Sobre uma possível reforma da legislação comercial no Brasil.

“Não sou sectario dos direitos excessivos, e muito menos das tarifas amplamente protectoras , porque entendo que no primeiro caso o contrabando cresce na razão directa da subida dos direitos alfandegaes, e no segundo é obrigar os consumidores a comprar o peior por mais altos preços, prohibindo a concurrencia que é o principal alliciente para o melhoramento da producção e industrias; comtudo entendo que certas e determinadas industrias que se achão nacionalisadas no paiz, carecem de protecção, até que tenhão tocado ao ponto de poderem concorrer com as similares do estrangeiro ; e fundado nestes principios farei algumas observações sobre a tarifa actual, baseando-me nos dados officiaes, a fim de firmar as minhas proposições .”

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Sobre estatística e evidências empíricas no século XIX

A evidência empírica não importa.

Trecho do livro Elementos de Estatística, de Sebastião Ferreira Soares, de 1865. Possivelmente a primeira obra brasileira sobre a aplicação da teoria estatística aos dados comerciais do Brasil. O autor discute um ponto que ainda é relevante na historiografia brasileira e nos lembra (sendo um contemporâneo) os limites da utilização de discursos políticos para validar hipóteses em história econômica.

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Ora’, se existisse uma bem elaborada estatística, os argumentos, por analogia, só serão trazidos por comparação, e não como principais ; porque as instruções analógicas são quase sempre falíveis, visto que difícil é concorrerem as mesmas causas e circunstâncias em países diversos, e produzirem iguais efeitos.

Raros são os escritos publicados entre nós sobre à aplicação das teorias econômicas, e isto porque só em vista dos fatos enumerados por bem elaboradas estatísticas, podem ser determinados os resultados obtidos das teorias aplicadas, os quais, sendo convenientemente analisados e comparados, poderão confirmar a utilidade dos princípios postos em ação, ou aconselhar a sua modificação, a fim de surtirem os efeitos desejados.

Em 1859, no recinto da câmara temporária, foi descrito o país, como marchando para um abismo, no qual infalivelmente tinha de despenhar-se. Cidadãos autorizados por seus reconhecidos talentos disseram que a nossa produção agrícola definhava por falta de braços depois da cessação do trafico dos africanos; e até afirmaram que as fontes da riqueza particular e publica tendiam a esgotar-se em breve tempo.

Estas inconsideradas proposições, lançadas no calor dos debates, por certa forma abalarão o nosso credito no exterior, e os fundos públicos brasileiros baixarão muito nas suas cotações na bolsa de Londres.

Com a intenção de prestar um bom serviço ao meu país, e combater o mau efeito produzido por alguns discursos dos nossos parlamentares, cujas apreciações sobre a nossa produção agrícola eram menos exatas, escrevi e fiz publicar no Jornal do Commercio uma serie de artigos baseados sobre os dados oficiais das nossas exportações, nos quais demonstrei até a evidência que a produção agrícola do Brasil-, marchava com lisonjeiro progresso, principalmente depois da cessação do tráfico de africanos.

Demonstrei que no país não havia falta de braços […]

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Lincoln’s crazy plan to send the freed US slaves to Amazonia

Lincoln espertalhão

From the New York Times, December 28, 1862.

This is part of a published letter from Mr. James Watson Webb, US Minister to Brazil, regarding the idea of President Lincoln to solve the necessity of obtaining a place or colonization for the persons manumitted (the freed black population)

“In one word, the finger of God, in my mind, points to the northern provinces of

Brazil as the future home of the manumitted negro of the United States; and thus, by the simplest of all means, the United States, Brazil, and the freed negro, are all to be equally benefited by one and the same measure, viz.: A treaty between the United States and Brazil, by which all the freed negroes of the United States shall be transplanted to the region of the Amazon at the expense of the United States, and there be endowed with land gratuitously by Brazil, and at the expiration of a term of years become citizens of Brazil, with all the rights and privileges of the free negro population of the empire”

There is also a thesis from the History department at USP telling this plan from President Lincoln. More about this story: http://revistapesquisa.fapesp.br/2009/02/01/o-dia-em-que-o-brasil-disse-nao-aos-estados-unidos/

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